O Transtorno por Uso de Álcool (AUD) não pode ser compreendido apenas pela quantidade de álcool consumida.
A dependência envolve uma reorganização progressiva de diferentes dimensões da vida: circuitos cerebrais, regulação emocional, respostas ao estresse, hábitos, tomada de decisão, relações e, principalmente, a maneira como a pessoa passa a experimentar a si mesma e o mundo.
O QUE A NEUROCIÊNCIA NOS MOSTRA?
Com a repetição do consumo, o cérebro passa por processos de neuroadaptação.
Circuitos relacionados à recompensa, motivação, estresse, aprendizagem e controle executivo podem sofrer alterações. Com o tempo, beber pode deixar de estar predominantemente associado à busca de prazer e passar a funcionar também como tentativa de aliviar desconforto, tensão ou estados emocionais negativos.
É nesse contexto que os trabalhos de George Koob ajudam a compreender a transição entre recompensa, hábito, abstinência/afeto negativo e busca compulsiva.
MAS O CÉREBRO NÃO CONTA TODA A HISTÓRIA.
A fenomenologia acrescenta uma pergunta fundamental:
“Como essa pessoa está vivendo sua própria existência?”
Na perspectiva de Thomas Fuchs e da psicopatologia fenomenológica-estrutural, podemos investigar alterações na experiência do corpo, dos afetos, das relações, do tempo e das possibilidades futuras.
Em alguns pacientes, o mundo progressivamente se estreita.
Projetos diminuem.
As possibilidades parecem menores.
O futuro perde força.
E o álcool pode ocupar um espaço cada vez maior na organização da vida cotidiana.
É o que podemos compreender clinicamente como uma contração do campo de possibilidades.
ONDE ENTRAM qEEG E HRV?
O qEEG pode acrescentar informações sobre a dinâmica da atividade elétrica cerebral, enquanto a variabilidade da frequência cardíaca (HRV/VFC) contribui para a avaliação da regulação autonômica.
Essas medidas não diagnosticam, isoladamente, o Transtorno por Uso de Álcool.
Seu valor está na integração com avaliação clínica, neuropsicológica, comportamental e fenomenológica.